Tudo começou nas primeiras horas da manhã — antes das sete horas! — quando tentava me preparar a caminho da escola.
Antes de pegar a sacola das memórias oferecida pelo meu avô Nderere, na sua parede de palha, sempre acostumava escutar o telejornal do xirico antes de partir. Porque era uma distância muito longa, composta por rios de tamanha porção que não eram atravessados antes de o metrologista anunciar o estado do tempo.
Mas mesmo assim, a notícia sempre chegava mais tarde, porque no mesmo telejornal falava-se de muitos acontecimentos — como as cheias, assuntos políticos, empregos, futebol onze, e muito mais — deixando-se a previsão do tempo como um dos últimos toques da agenda.
Eu, com meu avô Nderere, mal nutridos, sempre escutávamos as notícias de dindi para dindi. Quando se falava das cinco pessoas que morreram em um ataque do crocodilo no rio Zambeze. Quando se anunciavam três mil deslocados em Cabo Delgado por insurgentes. Quando milhões de empregos que nunca chegaram foram anunciados, mesmo com consciência de que o país ocupava o quarto lugar de pobreza. E quando o povo se preocupava em dizer sim antes de analisar como esse emprego chegaria.
Eu, com meu avô Nderere, sentado ao lado da bengala dos séculos. As promessas chegavam como se fossem séculos, uma vez que nunca tivemos oportunidade de chegar ao topo, sermos ouvidos.
Mesmo assim, nós perguntávamos no interior dos nossos corações: porque os filhos do senhor presidente não olharam os milhares de diplomas armazenados nas gavetas — diplomas daqueles jovens que se dedicaram aos seus estudos e nunca tiveram oportunidade para trabalhar? Porque o senhor presidente não levou aquele dinheiro dos milhões anunciados no telejornal para investir nos jovens formados para emprego?
Porque o senhor presidente não levou aquele dinheiro anunciado na TV para reforçar os setores da educação, com alunos ao relento, ministério sem manuais, sem escolas, e muito mais — ainda nos perguntávamos. Porque o senhor não levou aquele dinheiro para investir na saúde?
Nós nos perguntávamos um ao outro, internamente, sem tirar voz, porque as coisas estavam cada vez pior do que antes.
Mas mesmo assim — apesar de que o povo olhava no negativo — havia em nós uma teimosia de aurora.
O avô Nderere levantou-se primeiro, como se a idade lhe pesasse menos que a esperança. Bateu a bengala dos séculos no chão de terra e disse:
— Vai. Mas leva a sacola. Não é para carregar comida. É para carregar memória. Quem não tem memória, aceita qualquer promessa.
Lá fora, o dia começava a nascer por cima das casas de palha. O xirico ainda falava. O locutor dizia que as chuvas iam continuar, que os rios iam subir, que as estradas iam cortar. Depois disse os números: cinco mortos, três mil deslocados, milhões para isto, milhões para aquilo. E eu perguntei ao avô, sem tirar voz:
— Avô, onde é que ficam esses milhões quando o telejornal termina?
O avô não respondeu logo. Cuspiu para o lado, olhou o horizonte e disse:
— Ficam na mesma gaveta onde guardam os diplomas dos nossos filhos.
Peguei a sacola das memórias. Dentro havia coisas pequenas: sementes de mapira, um botão de camisa, um recorte de jornal amarelado, uma fotografia sem rosto. Nada daquilo valia dinheiro. Mas valia mais que o dinheiro: valia história. Fechei a sacola e parti.
O caminho para a escola era um rio comprido. Atravessei o primeiro com água até aos joelhos. No segundo, um homem velho puxava uma canoa com crianças dentro. No terceiro, já não havia canoa; havia só fé. E eu fui, com os pés na lama e a sacola ao peito, como quem leva um coração emprestado.
Quando cheguei, a escola era um esqueleto de paredes. O professor não veio. Dizem que foi buscar o salário atrasado. Os alunos sentaram-se no chão, à sombra de uma árvore. Um deles tinha um caderno tão velho que as folhas pareciam folhas de tabaco. Outro não tinha lápis; escrevia com o dedo na areia.
Foi então que me lembrei das perguntas que fazia ao avô. Peguei num carvão e escrevi na parede:
Senhor Presidente, onde dormiu o dinheiro dos milhões?
O vento passou. A poeira cobriu as letras. Escrevi outra vez. O vento apagou. Escrevi no chão. O vento apagou. Então escrevi dentro de mim. E as palavras ficaram lá, como cicatriz.
Um colega meu, chamado Juma, disse:
— O meu irmão formou-se em contabilidade. Está em casa. Pendurou o diploma na parede de palha. Diz que é para não perder a cor.
Outro disse:
— Em Cabo Delgado, há gente a fugir. Aqui, há gente a fugir para dentro de si mesma.
E eu olhei para a sacola das memórias. Abri-a outra vez. Tirei o recorte de jornal. Era uma notícia antiga: Governo promete empregos para jovens. O papel estava rasgado. Peguei no carvão e escrevi no verso uma carta. Não para o jornal. Para o Senhor Presidente.
Escrevi:
Senhor Presidente,
O senhor já atravessou um rio sem saber se chegava à outra margem? O senhor já ouviu o telejornal do xirico antes das sete horas e depois foi para a escola sem comer? O senhor já viu um diploma a apodrecer numa gaveta enquanto um crocodilo come um irmão no Zambeze?
Não lhe peço esmola. Peço contas. Onde está o dinheiro da educação? Onde está o dinheiro da saúde? Onde estão os empregos que o senhor anunciou? Se os seus filhos não olham para os nossos diplomas, ao menos olhe para as nossas mãos. Elas estão vazias, mas ainda sabem trabalhar.
Não tenho envelope. Não tenho selo. Não sei o endereço do palácio. Mas o avô Nderere diz que a memória anda mais depressa que o correio. Então entrego-lhe esta carta pela bengala dos séculos. Se o senhor não a ler, ela ficará na areia, no rio, no mar. E o mar não esquece.
Dobrei o papel e guardei-o na sacola. O avô, quando soube, riu-se devagar:
— A bengala não anda até Maputo. Mas a memória anda. E um dia, quando o povo cansar de dizer sim antes de analisar, a memória vira voz. E a voz vira voto. E o voto vira conta.
Naquela manhã, o telejornal do xirico não terminou quando o locutor se despediu. Continuou dentro de mim. Continuou no Juma. Continuou em cada menino que escrevia na areia com o dedo. E o Senhor Presidente, se um dia ouvir o xirico de dindi para dindi, talvez escute, por baixo da voz do locutor, a voz de um menino que ainda não almoçou — mas que já aprendeu a perguntar.
Saraiva B. Intinha
